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O sol baixou para mais perto da linha do horizonte, ficando a um palmo do mar. Tinha-se passado tempo que não senti.
Chet Baker tocava, agora, trompete só para nós. “I talk to the trees” pairava pela esplanada em busca do melhor lugar para se aninhar. Aninhou-se ali, entre mim e aquela mulher-menina. Não havia mais ninguém na esplanada, o casal da única mesa ocupada além das nossas tinha desaparecido, por isso o empregado aumentou o som. Faziam-no sempre que não havia gente que se pudesse queixar do barulho. Nunca me queixei. Antes pelo contrário, era essa a razão que me levava a percorrer quilómetros até ali: o jazz, por vezes alto, quanto mais alto melhor, e o sol a pôr-se no horizonte, quanto mais baixo melhor.
- É a primeira vez que aqui venho – interrompeu-me, Ana, os pensamentos como se os lesse e precisasse de lhes responder – Costuma cá vir?
- Sempre. Quase todos os dias no verão.
- Porque não gosta de Direito? – saltava de tema em tema como se todos estivessem interligados.
- Não tenho jeito para escrever cartas – disse, esboçando um sorriso cúmplice.
- Eu também não gosto da parte das cartas. Gosto mais dos tribunais. De dar coças a gente estúpida. Tenho jeito para isso. Sou má como as cobras! – soltou uma gargalhada. Era a primeira vez que a via rir de verdade. Tinha uma bela gargalhada, larga. O sinal ficava-lhe quase no sítio de onde a bochecha tinha fugido.
- Que lhes faz? À gente estúpida…
- Faço-a contar-me os seus piores pecados. Mas depois não lhe dou a absolvição, tento mandá-la para a cadeia - riu de novo – Mas a outra gente safo-a da cadeia... Quando os crimes são acidentes de percurso... Quando a vida a obriga a cometer injustiças e delitos, safo-a. Ou tento safá-la...
Fixou os olhos nos meus e sorriu.
- Gosto de si, sabe? – disse, com os olhos castanho-mel a quererem  apoderar-se dos meus -  Do que escreve – corrigiu.
- Nunca li uma carta sua, por isso não sei se gosto do que escreve. Mas pode sempre enviar-me uma... – respondi numa mistura entre um tom de brincadeira e um de sedução. A mistura caiu-me mal. Senti-me subitamente ridículo e tentei contrapor dando um tom mais sério às minhas palavras - Sabe, estava aqui a tentar descobrir o que faria uma menina como a Ana ler um livro meu?
- A dor. Aquela que viu nos meus olhos. Talvez...  
A música era agora “Summertime” ainda pelo trompete de Chet Baker.
Com a mesma destreza com que saltara de assunto em assunto durante a conversa, a menina dos cachos selvagens agarrou-me o braço com força e pousou a cabeça sobre a mão que me apertava. Fiquei sem saber o que fazer. Afagar-lhe os caracóis? Pousar a cabeça sobre a dela? Ou soltar-me do aperto?


(continua)

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