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Corcundas

Ter dúvidas é quase considerado pecado. "Ah, eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas", já dizia o nosso "exímio" ex-PR quando ainda era PM. 
Portugal está cheio de gente sobrecarregada de certezas. Têm tantas que as vemos curvadas pelo peso da convicção. Se por algum estranho acaso não estão plenamente convictas, inventam rapidamente uma qualquer certeza para ganharem credibilidade.
Estamos a criar um país de corcundas que se vergam à ilusão de parecerem fidedignos. Preferem acreditar em mentiras do que dar tempo ao processo de descoberta. A hesitação é o mal de que morrem de medo de vir a padecer.

E, no entanto, carecem do poder da interrogação. E, no entanto, padecem da ausência de clarividência.

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Assédio tuga

Hoje fui assediada de uma forma um tanto ou quanto... original.

Numa exposição, um senhor de uns oitenta e poucos anos encostou o ombro ao meu como que para ver o mesmo artigo exposto que eu estava a ver. Como uma pessoa mais ou menos bem-educada, afastei-me para lhe dar espaço, pensado que era isso que pedia com o encosto.
O senhor volta a aproximar-se e diz: -Minha senhora, dá-me um beijinho? Olho para ele espantada e respondo:  - Não! - Porquê? - pergunta, estranhando a minha nega. - Porque não nos conhecemos. - Mas a senhora tem uma cara tão bonita... Dê-me lá um beijinho!
Afasto-me com medo que, num saltinho (porque sou para o alta e ele era para o baixo), me espete um beijo, apanhando-me desprevenida. Finjo que vou ver outra peça da exposição para me afastar um pouco mais. O senhor vem atrás de mim e, como me sinto perseguida, olho para "maman" que está de costas e completamente alheio ao assédio de que estou a ser vítima, na esperança que, caso a coisa dê para o torto…

Um Pavor de Pai Natal

O J. que nunca gostou de Pais Natal foge cada vez que encontra um nos Centros Comerciais. Hoje, quando andávamos às compras, rezando para que não encontrássemos nenhum à esquina, pergunta-me: - Alguma vez me tentaste obrigar a sentar ao colo de um Pai Natal? - Não, claro que não. Ainda mais eu que sempre tive medo de palhaços e te compreendo tão bem por não gostares de Pais Natal. - A sério? Sempre tiveste medo de palhaços? - pergunta, sentindo o seu medo menos solitário. - Sim, sempre tive medo de palhaços e mascarados. Fazia-me impressão não  lhes conseguir ver as expressões faciais. - Mas houve uma vez que te mascaraste de palhaço... - Sim, mas isso já foi mais tarde. Além disso, não tinha medo de mim, como é lógico. - E o pai? Tentou sentar-me ao colo de algum Pai Natal? - Não, que me lembre, não. Mas o pai não te ia fazer isso... Nenhum de nós te ia obrigar a sentar ao colo do Pai Natal. Podíamos ter perguntado se querias, mas obrigar-te não, de certeza. Porque perguntas isso? -…

Parceira de PET

Há uns tempos, durante a minha cruzada oncológica, fiz várias PET - Tomografia por Emissão de Positrões. O exame não é doloroso, no entanto foi dos que mais me custou fazer. Requeria uma longa preparação de jejum e de imobilidade que, para uma pessoa como eu, cujo mau-humor se acentua quando exposta a factores como a fome, o frio e o sono, me deixava para lá do insuportável. Durante as longas horas de preparação só me apetecia bater em toda a gente que cruzasse o meu caminho. Como não o podia fazer, tentava dormir para esquecer a fúria que me invadia.
Num destes dias de tortura, dormi durante umas sete ou oito horas numa cama de hospital até me chamarem para a sala, dita, de preparação para o exame. Já tinha uma noite de jejum em cima e estava possessa. 
Tal como podem ler na definição de PET que linquei acima, é-nos injectada uma substância radioactiva antes do exame, que nos percorre o corpo e assinala os consumos de glicose anormais das células, uma das características das células…