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Mensagens

A mostrar mensagens de 2017

Anita no Facebook

O Facebook anda a fazer-me mal. O chato é que preciso daquilo como ferramenta de trabalho e acaba por ser difícil desligar de vez ou até fazer um intervalinho com fins terapêuticos.
Ultimamente, ando tão farta de por ali andar que já tudo me parece os livros da Anita.
Antes do Verão: Anita corre quilómetros para caber no biquíni
Em férias:  Anita mete o pezinho na areia e o nariz no mar
Em dias de sol: Anita vai à esplanada com as amigas e diverte-se a potes
No fim das férias:  Anita volta para o trabalho chateadíssima, mas, pronto, a vida é assim e tem que trabalhar
À hora das refeições:  Anita cozinha um delicioso jantar cheio de super-alimentos e de baixas calorias ou  Anita vai almoçar a um sítio todo fashion, come imenso marisco e bebe sangria de champagne
Tarde de sábado:  Anita vai a uma exposição qualquer interessantíssima ou Anita sai à rua e vê as pessoas a passar
Sábado à noite:  Anita dança e bebe gin 
Tarde de domingo:  Anita vê um filme com a família ou Anita tem umas flores lindas…

Da estupidez...

Primeiro entra aqui a minha estupidez: Pus-me a ler os comentários feitos às notícias que se espalham pelo Facebook. Burra, estúpida, nunca mais aprendes!

Depois entra a estupidez da própria notícia: Esta preciosidade que tem gralhas que não se admitem num jornal como o Público e que se baseia em ouvir dizer de ouvir dizer "a humorista e locutora de rádio argumentou em declarações ao jornal sueco Aftonbladet, citado pela BBC", o que mostra como os jornais têm de trabalhar rápido hoje em dia, porque as fontes de informação são, imagine-se, outros jornais, e também é baseada em tricas de Twitter. (Atenção que não culpo o Público por esta estupidez, de maneira nenhuma, culpo-nos a nós, leitores, que já não exigimos uma comunicação social como deve ser, porque preferimos a rapidez e a gratuitidade à qualidade! Sim, a culpa, e esta estupidez, é mesmo nossa!)

Em terceiro lugar vem a estupidez do que é noticiado: Um festival de Verão só para mulheres, livre de homens, para que estas…

Colecciono manhãs da minha janela

Quem vive de dia não sabe que o nascer do sol é muito mais belo do que o seu pôr.
Eu, que me deito de manhã e vivo de noite, vejo-o mal ele acorda.
Colecciono cada amanhecer, cada raio de luz que espreita ainda timidamente o horizonte. Roubo aquele momento para dentro de uma objectiva e vou sonhar com as manhãs que não presencio. Como se pudesse reviver aquilo que acabo por não chegar sequer a viver. Mas que levo para os meus sonhos e que fica comigo até ao acordar... já o sol está alto e sem beleza digna de retratos.
Perco todo o percurso até se fixar lá em cima a iluminar-nos, mas guardo o mais belo de todo o seu caminho, quando ainda espia e se decide se há-de ou não nascer e agraciar-nos com um novo dia.

Vejo-o sem que me veja, em tons laranja, da minha janela. Todos os dias.





O Pedro e os Pedros

A primeira morte que me devastou foi a morte de um colega de escola. Eu tinha uns seis ou sete anos. Lembro-me de a minha mãe me dar a notícia. "O Pedro morreu", ecoou-me na cabeça várias vezes.
O Pedro tinha a minha idade e tinha ido de barco pescar para o rio com o avô. Parece que o Pedro caiu do barco e que o avô foi atrás dele para o tentar salvar. Ficaram lá os dois. O Pedro tinha uma irmã mais nova, loirinha como ele, e uns pais de aspecto feliz. 
Lembro-me que me fartei de chorar pela morte do meu colega e por, pela primeira vez, ter tido consciência da mortalidade das crianças.
Hoje, passados trinta e tal anos, volto ao Pedro e à sua morte estúpida. Volto ao Pedro levada pelos Pedros que têm morrido no incêndio de Pedrógão Grande. Mas já não volto só ao Pedro, volto aos pais dos Pedros que, ou os viram morrer, ou que morreram com eles a tentar salvá-los. A imagem do avô afogado ao lado do neto transforma-se na imagem dos pais e dos filhos dentro dos carros com as cha…

In utero

No outro dia, o meu filho conheceu-se in utero. Mostrei-lhe a ecografia e o vídeo que se gravou naquela altura. Tinha cinco meses de gestação e nas imagens em tons dourados encontrou-se quando ainda um feto.
Antes do vídeo e da ecografia que lhe mostra o rosto, tentou encontrar-se nas ecografias a preto e branco e pouco perceptíveis, desde o feijão até à última que fiz, já quase um homenzinho e pronto a irromper por mim afora.
Teve pudor da nudez e sentiu um assalto à sua privacidade quando a imagem nos confirmou o seu sexo. Viu o próprio coração bater e ouviu-o, como se naquele momento se revisse num outro.

Pela primeira vez, teve a noção de que veio por engano, que se não tivesse uma mãe maluca que se julgava imune às gravidezes, não estaria aqui e não seria ele.
Percebeu que só o descobri já no segundo mês de gravidez e que foi um xixi numa espécie de caneta que mo revelou.

"E o que pensaste, mãe?", "o que sentiste?", quis saber.

Foi estranho contar-lhe a surpr…

A escola pode não ser um lugar escuro

Sei que digo aqui, muitas vezes, mal do ensino em Portugal. Há coisas que me revolvem as entranhas; que podiam melhorar muito; que não funcionam mesmo nada bem... Mas também há coisas boas a assinalar como a que aconteceu hoje de manhã com a turma do meu filho.

Esta manhã, a professora de Português levou a turma pelas ruas da cidade para fazer perguntas à população sobre como escrever correctamente em português. Os alunos levaram uma lista de frases. Cada frase tinha uma palavra escrita da forma correcta e da forma incorrecta e as pessoas tinham que escolher a que estava bem.
Os miúdos divertiram-se imenso, aprenderam e até ensinaram algumas dessas pessoas a escrever, e a falar, melhor.

Foi uma actividade simples, sem custos acrescidos e que talvez tenha sido muito mais produtiva do que uma aula com a turma fechada dentro da sala.

A única coisa que tenho a apontar é estes miúdos terem de aprender a escrever com o Acordo Ortográfico, que é uma perfeita aberração, mas nisso a professor…

Era só isto!

"Malak, uma menina síria de 7 anos, fugiu da guerra na Síria com sua família. Eles passaram por uma perigosa jornada pelo Mediterrâneo.
Nenhuma criança deveria passar por isso."

Era só isto!

Injustiça e intolerância

A tentativa de mostrar que se é justo cai amiúde na intolerância. Parece um contra-senso e, até há bem pouco tempo, eu pensava que isto não existia.

Só após ser mãe e ter um filho que faz algumas coisas bem feitas e tem (perdoem-me a ausência de modéstia neste capítulo, mas não consigo dizer isto sem parecer que me estou a gabar, quando, de facto, não estou, mas parecerá sempre que sim) uma inteligência e cultura acima da média, é que percebi que isto era possível de acontecer.
Os modelos estilizados, que as pessoas seguem cegamente e, para com os quais, se abstêm de usar o pensamento crítico, potenciam a intolerância. 
Imaginar alguém que é bom aluno é encaixá-lo no sector dos famosos marrões. Os ditos "marrões" são sempre relacionados com quem estuda horas a fio, é exemplarmente bem comportado e acata todas ordens sem as colocar em causa ou sequer questionar.
Encontrar alguém que é bom aluno, que não estuda a ponta de um corno e que tem maus comportamentos periódicos agita…

Cobardia

Da imensidão de coisas que me afligem, a cobardia é daquelas que encabeça a lista. A mentira, a ocultação de verdades essenciais, a transferência de culpas para quem é mais fraco ou está menos protegido, a falsidade e a não assumpção dos próprios erros são características que estão de mãos dadas com a cobardia.

Ser cobarde é trazer tudo isto no mesmo pacote. É ausência de maturidade, de seriedade, de humildade, em quem supostamente devia ser superior aos próprios erros ao ponto de os assumir e tentar corrigir com franqueza.

A cobardia atinge essencialmente os invejosos, os que não são abonados por um amor-próprio suficiente que lhes permita reflectir sobre os próprios actos e sobre aquilo não dominam tão bem.

O erro é inato ao Homem. Todos erram, todos falham. Mas só evolui quem ultrapassa as próprias fraquezas, assumindo-as e corrigindo-as e tomando-as como um caminho para a evolução pessoal.

Os outros? Os outros são os cobardes, são que se estagnam e se deixam afundar na própria me…

A paragem

Em pé, agarrada à pega do tecto, vou passando o olhar por quem habita o metropolitano. Por escassos minutos aquela é a nossa casa. Somos perfeitos desconhecidos que se encontram por momentos. Muitos de nós nunca mais nos iremos voltar a ver. São minutos preciosos em que pousamos os olhos uns nos outros e conhecemos estranhos, sem nunca os conhecermos realmente.

Há quem não tire os olhos do telemóvel; quem não tire os olhos das paragens que vão passando do outro lado da janela; quem olhe o tecto ou o infinito. Eu olho-os a todos, tento ler-lhes nas expressões o que lhes vai na alma. Quero saber em quem pensam, como lhes correu o dia, de onde vêm e para onde vão. Tento adivinhar-lhes as paragens de destino pela forma de vestir, pelo comportamento, pela inquietação.

Conto os dos telemóveis e são a maioria. Conto os das malas e há muitos. O aeroporto será o destino dos das malas certamente... Para onde irão viajar? Tento agora adivinhar-lhes a nacionalidade. Preciso de uma palavra para co…

Alien

Quando o teu filho de treze anos acaba a noite de aniversário todo contente porque foi ver um concerto de jazz e recebeu uma t-shirt e um Cd autografado pela banda que viu actuar, pensas que, em vez de uma criança comum, deste à luz um alien.
Ao mesmo tempo, quase num sentimento contraditório, suspiras e pensas: "Ainda bem! Meu rico alien!".

Parece...

Parece que uma coisa que se diz jornal publicou um vídeo de uma alegada violação...
Parece que as redes sociais se indignaram em peso e apresentaram queixa à ERC...
Parece que a ERC irá investigar o caso do suposto jornal...
Parece que a coisa é dos supostos jornais que vendem mais em Portugal...
Parece que há um povo supostamente letrado que o lê...

Auto-estima lusitana

Este fim-de-semana, Portugal esteve lá em cima. Desde o santo Papa que por aqui poisou, passando por uma euforia em tons de vermelho, culminou na Salvação da nação.
Somos um povo bipolar. Ora estamos nos píncaros, ora nos enterramos na areia. Tocamos a esquizofrenia, sem, porém, a habitarmos por completo. Rodamos sobre nós próprios na incerteza de um lugar para permanecer.

O Papa curou-nos dos pecados, o Benfica passou de clube a futebol português, o Salvador, bem, o Salvador continuou a ser o Salvador, porque salvou toda uma nação das miseráveis qualificações nos miseráveis festivais da Eurovisão.

A euforia instalou-se num país que é de um fado fatídico, a cair para o depressivo. E, no entanto, este fim-de-semana, por obra e graça do espírito santo, alevantou-se. Ergueu-se das amarguras e elevou-se aos céus, com uma ajudinha de um afável Francisco, claro!

Há bestas e bestiais. Ah, mas nós, lusitanos, somos os dois!
Hoje, somos os "máiores". Amanhã... logo se vê.

Desalinho

Salvador Sobral, Papa, Benfica, militar da GNR resumem uma semana, cujo apogeu se dá entre hoje e amanhã, repleta de fanatismo.

Desde que as redes sociais substituíram as tertúlias no sofá da sala, na esquina da rua, à janela, ou na mesa de café, que os ânimos se exaltam não em cenas de pancadaria, que a virtualidade não permite, mas em cenas de fanatismo empírico desenhado em comentários desalinhados.
Dizem-se as maiores barbaridades em acto reflexo. Despreza-se o poder do cérebro no processamento da informação. Reage-se. Abandona-se a empatia, a brandura, a clarividência. Há um misto de escuridão e ignorância instituídas.
Será que a pressa e a reacção mataram a dúvida, a reflexão e o conhecimento que só o tempo permite?
Será que nos anos que se seguirão o ser-humano vai perder a capacidade que o distingue de outros seres? Será que vai ser mais um guiado pelo instinto?

O desalinho é geral. Ele paira por aí, no ar que se respira.

Sexta à noite

De andar direito, até um pouco emproado, segue meio gingão pela rua fora. Hoje, que até está frio, as mangas da camisa têm de estar arregaçadas. É sexta à noite. E todas as sextas à noite merecem o esmero na indumentária, combinado com o perfume Yves Saint Laurent que a mãe lhe ofereceu no Natal. Está jeitoso e tão cheiroso que se sente ao longe.

Cruza-se com a vizinha do quinto esquerdo que vai entrar no prédio e cumprimenta-a com uma vénia. É gira. E quando elas são giras não se podem desperdiçar. Sacam-se as mordomias e os cavalheirismos da cartola e elas derretem-se que nem manteiga ao sol, ou gelado, sabe lá. Nestes momentos só sabe o que faria com um avião daqueles. Mas hoje não. Hoje é sexta à noite e às sextas à noite não é por ali que quer andar, por isso não se pode perder no caminho.

Saca as chaves do Audi azul descapotável da algibeira - não da cartola que na cartola só guarda aquelas elegâncias que impressionam as garinas - e dirige-se para o veículo enquanto vai rodando…

Leio-te Mal?

Leio-te um olhar infeliz apesar do sorriso que trazes nos lábios. Como é penoso fingirmos a nós mesmos que nos basta o que não basta. O brilho que se esfumou do teu olhar para onde foi? Procuro-o no teu rosto sem o encontrar.
Leio-te só apesar da gente que te rodeia.
Leio-te longe de ti. Dos teus. Desterrada das tuas raízes, tentando enraizares-te aonde não pertences.

Leio-te mal?

Às vezes, a vida...

Às vezes, a vida entra-me nariz adentro: no cheiro das flores, do feno, do mar, do sabonete que lavava a cara da minha bisavó. Às vezes, a vida roça-me a pele: no pêlo dos bichos por entre os dedos, na barba mal feita do meu homem que me arranha a cara, nos cabelos do meu filho junto ao queixo.  Às vezes, a vida mora-me nos sentidos e aloja-se no sentido da própria vida.

"Era uma vez uma baleia azul..." - por uma ovelha negra

Parece que o jogo "Baleia Azul" tem assustado muita gente. Sim, de facto, pode ser muito assustador, mas não está sozinho naquilo que nos deve assustar.
Tenho a sensação que andamos um bocado anestesiados e que só nos assustamos com notícias alarmistas, sem, porém, tomarmos consciência daquilo que nos está tornar cada vez menos pessoas.
As novas tecnologias são ferramentas de grande valor, no entanto são também a causa de mudanças drásticas na sociedade.
As relações pessoais, tanto entre adultos, quanto entre jovens, têm sofrido imenso com a dependência das tecnologias de que todos acabamos por sofrer um pouco. As relações com os outros e connosco próprios. Somos menos sociáveis, pensando que somos mais.
Penso que é na adolescência que se nota mais os efeitos nefastos desta dependência. A partir dos dez anos é comum e aceitável pela maior parte dos pais terem os filhos constantemente agarrados aos telemóveis. E aqui o que me assusta mais é tomar-se por normalidade aquilo qu…

Portei-me bem, não portei, mãe?

No dia de aniversário da minha avó é costume encontrar-me com os meus tios e primos e, agora, com os filhos dos meus primos. No ano passado, como de costume, encontrámo-nos em casa da minha avó para festejarmos os seus 79 anos.  O meu filho é o mais velho das crianças e raramente vê os filhos dos meus primos, por isso andou por lá numa brincadeira pegada com eles. No final da noite, quando vínhamos embora, diz: - Portei-me bem, não portei, mãe? - Sim, portaste. Porque perguntas isso? - Eh eh eh! Porque pus os putos todos a brincar à porrada!

Os bichos

Tenho bichos nos dedos. Uma necessidade premente de escrever não me deixa sossegar.
Tenho bichos que me fazem cócegas no cérebro. Tenho o cérebro cheio de bichos! Ideias que saltam, pensamentos que se atiram contra o vazio... O meu vazio é cheio de minhoquinhas irrequietas. Enquanto não as despejo (a elas, às ideias e aos pensamentos) este vazio parece infinito.

Só digo parvoíces, não é? Pelos menos já mexi os dedos e agitei o cérebro e consegui livrar-me de alguns dos bichos...
Agora já posso ir dormir um pouco mais tranquila.
Boa noite, bicharada!

Dia da Mulher atrasado

Às vezes penso que é a questão da maternidade que assusta tanto as sociedades em que a liberdade das mulheres é restringida por homens; que se fôssemos igualmente livres, com a capacidade que temos de gerar pessoas dentro de nós, poderiam considerar-nos ameaçadoras da liberdade masculina.
Às vezes, penso isto mas tento afastar o pensamento, porque sinceramente acredito na igualdade. Acredito que somos iguais, apesar das diferenças. Diferenças morfológicas essencialmente, mas mesmo assim diferenças.
Fazem-me confusão as formas de celebração do Dia da Mulher. Acho-as terrivelmente machistas. Como se a mulher é que devesse ser celebrada e não luta pela igualdade de géneros relembrada. Exaltam-se as características ditas femininas, através das flores, dos bombons, da beleza, da sensibilidade, da atenção ao lar e à família. E ser mulher não é nada disso. É ser igual a ser homem. É ser pessoa.
Mais do que se celebrarem as mulheres, deve-se relembrar que ainda não nos consideram iguais e ple…

O bom, o mau e a promoção

Ainda não acredito que haja gente totalmente má, ou totalmente boa. Digo "ainda", porque talvez daqui a uns anos esta minha ideia venha a mudar. Não sei... espero que não.

Ser bom ou mau não é uma posição estática. Ninguém é sempre bom ou sempre mau. Além de as pessoas mudarem à medida que vão crescendo e vivendo, também não conseguem prolongar a sua bondade ou maldade infinitamente. Há momentos em que saem da sua "categoria" e embarcam na outra. Por isso, catalogar alguém como bom ou mau é redutor. Na verdade, catalogar alguém do que quer que seja é sempre redutor.

Ora, hoje, mais do que em qualquer outra altura da História, a promoção é o factor que marca a diferença nesta visão do bom e do mau, atirando toda a gente para um lugar no catálogo da humanidade e pespegando-lhe uma legenda por baixo. A propaganda tem este efeito estranhamente desumano de colar etiquetas difíceis de arrancar nas pessoas. Estas etiquetas não só dizem respeito à bondade e à maldade de ca…

Facebook lovers

Chegam ao restaurante de mãos dadas como nos tempos em que ele ainda não tinha a barriguinha que lhe força os botões da camisa e ela as duas camadas de base em tonalidades diferentes que escondem os traços que o tempo lhe foi desenhando no rosto.
Ele afasta a cadeira para ela se sentar num gesto que reproduz o cavalheirismo dos filmes românticos de Hollywood. Ela senta-se com olhar meloso, encarnando a personagem feminina da trama, e ajeita a saia que lhe aperta as formas agora mais arredondadas.

Num silêncio premeditado, o frente-a-frente impõe-se. Afinal é dia dos namorados e o romantismo é a palavra de ordem.
O gesto automático tira o telemóvel do bolso da camisa dele que só acaba quando o objecto é pousado sobre a mesa. Está ansioso, mas não quer lhe notem a inquietação. Afinal, é só mais um dia dos namorados.

A voz sai-lhe tão melosa quanto o olhar que ela lhe dirige:
- Estás linda! - semicerra os olhos como que a comprovar a veracidade das suas palavras.
Aponta-lhe a objectiva …

Quero morar aí dentro

Quero ser o sangue que te percorre de lés a lés. Por dentro.
Invadir-te os órgãos e dar-lhes vida.
Quero sarar-te as feridas e oxigenar-te por inteiro.
Entrar nesse coração a cada segundo e viajar pelos cantos mais recônditos desse teu ser.
Quero morar aí dentro. Para sempre.

Deixem-se de merdas!!!!

Já vos falei da minha opinião quanto ao ensino em Portugal. Sim, já falei vezes demais sobre este assunto, mas como não me conformo, vou continuar a falar. Nem que seja para as paredes!

A revolta é tão grande que me sinto continuamente a viver num mundo à parte. Como se houvesse uma bolha em volta dos pais, professores e escola de onde eles não conseguissem sair de maneira nenhuma. Sim, a bolha rodeia-os a eles, não a mim! Parece que estão sempre a martelar na mesma tecla, cultivando um sistema completamente obsoleto, centrado em resultados, bons comportamentos, teorias da treta, como se não vissem para além do que lhes é imposto, como se não vissem o óbvio: que os alunos só aprendem se quiserem aprender; que o que interessa não são os fins, mas os meios para atingir os fins; que os bons resultados são o resultado (desculpem o pleonasmo) da vontade e não da imposição.

Merda para estas mentes fechadas em caixinhas minúsculas! Merda para eles, é o que tenho a dizer! Continuem a formar g…

Às mijadoiras

Respeito quem anda de roupa suja, rota, rasgada ou descosida.
Respeito igualmente quem traz a pele suja; quem cheira a sono ou suor; quem exagera nos perfumes ou quem não os usa de todo; quem não lava a cara, os dentes ou os pés.
Respeito quem se veste com roupas estranhas, desajustadas, excessivamente grandes ou pequenas.

Só não respeito quem mija para fora das sanitas e não limpa o seu mijado. E digo "mija" de propósito, porque esta gente não faz xixi, não urina, mija!
As mijadoiras dizem-se muito limpinhas e que mijam de rabinho no ar para não conspurcarem o dito cujo. No entanto, conspurcam tudo à volta. É que os seus reais rabinhos no ar impedem que o mijo que lhes sai das entranhas acerte dentro sanita... E, porque são muito limpinhas e têm nojo do próprio mijo, deixam-no espalhado por todo o lado, para que a próxima o limpe.

Não, não são limpinhas, minhas queridas, são mesmo porcas!

A miúda

Um dia conheci uma miúda no IPO (na verdade, nunca a conheci pessoalmente, mas de vista). Tínhamos a mesma médica e encontrámo-nos algumas vezes na "sala de chuto" do hospital. Devia ter uns dezasseis ou dezassete anos e tinha a vivacidade própria dessa idade.

Num dia em que tínhamos quimioterapia à mesma hora, ela chegou atrasada. Vinha com uns três ou quatro amigos da mesma idade e queimada do sol.
Era Verão, um daqueles dias abrasadores de Verão, e a miúda tinha ido à praia antes de ir para ali. Tudo normal se ela não estivesse em tratamentos de quimioterapia, já que as pessoas nesta situação não devem apanhar muito sol, porque ficam sujeitas a queimaduras mais facilmente. Mas a miúda, na frescura dos seus dezasseis ou dezassete anos, não quis saber e foi para a praia com os amigos.
Claro que a nossa médica se zangou e ralhou com ela, o que não quebrou aquela alegria de viver, nem a galhofa com os amigos.
Invejei essa alegria várias vezes... O alheamento à gravidade da si…