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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2016

Silêncio

É urgente o silêncio.  As emoções em excesso ensurdecem. As palavras em demasia enlouquecem. É urgente o silêncio.  O intimo exposto perde a preciosidade do recato, do que é só nosso, do que se consome no peito e se digere na reflexão. É urgente o silêncio. É preciso parar o ruído do supérfluo, parar o movimento pela impossibilidade de quietude. É urgente a meditação, a introspecção... E o silêncio.

Plateia ausente

Este palco em que o Homem decidiu morar é pouco tolerante com as humanidades. Errar é inadmissível. Fugir ao padrão estabelecido é pecado.  O Homem (que inclui a mulher, por isso não me vou pôr para aqui com femininos inúteis) auto-encarcerou-se numa jaula da qual não tem a chave. Fechou a porta e atirou a chave para longe por entre as grades. Está ali, fechado, a olhar para fora e a dizer que a liberdade é uma merda. (Realmente, a liberdade pode ser uma merda para quem não tem o desejo de voar. Até porque voar foge às regras...)
O Homem deixou de acreditar na diferença e crê que se distingue se se colar a um extremo. Os extremos estão cheios de gente igual que se junta, sem se unir, em pequenos nichos repletos de preconceito e discriminação. O Homem substituiu a própria existência pela ficção e está a representá-la num teatro que se encontra completamente vazio. Pobrezinho...

Tuga

Durante o jantar: - Sabem, os pais de algumas das minhas amigas são mesmo tugas? - Sim? Então porquê? - Na sexta à noite vão sair com os amigos e beber uns copos. - E as mães? - As mães não vão, claro! Eles são tugas, mãe!

História do ladrão

Às vezes vem-me à cabeça aquela tua história do assalto... Aquela parte em que dizias: - E ele perguntou-me "é aqui a casa do Neto?". E eu respondi-lhe "Casa do Neto? Oh não, o senhor está enganado, aqui não é a casa do Neto!" e conduzi-o para a porta. Lembro-me bem da tua expressão e de como sorríamos quando contavas a tua façanha, reforçando como soubeste ser inteligente e manter a cabeça fria numa altura como aquela. E repetias: - "É aqui a casa do Neto?, Oh não, o senhor está enganado, aqui não é a casa do Neto!" - e rias, e nós ríamos contigo. - E depois disse-lhe como se soubesse muito bem quem era o tal Neto "O senhor vai até lá ao fundo e depois vira à esquerda. A casa do Neto é mesmo ali" - contavas como tinhas enganado tão bem o ladrão, enquanto o punhas fora de casa. E continuavas - E ele saiu. Quando o vi fora de casa nem queria acreditar como tive coragem para fazer aquilo! Ele era muito maior do que eu, se quisesse dava-me uma pan…

Dar música aos macaquinhos

O meu filho quis ir aprender a tocar bateria.  Tinha apenas andado na música para bebés e na que tem como disciplina na escola.  A música para bebés não durou muito tempo porque ele queria era dançar e ver-se ao espelho da sala de ginásio onde eram dadas as aulas e não queria nada com os instrumentos.  Em pouco tempo, acabámos com a música. Achámos que não valia a pena estarmos a gastar tempo e dinheiro se ele não aproveitava as aulas.  Desde aí, só teve a música da disciplina na escola.  Até ao dia em que fomos passar o ano a casa de uns amigos que tinham uma bateria... O puto apaixonou-se.  Já lá passámos três passagens de ano e ele tenta sempre ficar com o lugar cativo na bateria.  Nesta última vez foi demais, só saiu da bateria para comer e ir à casa-de-banho. Não parou de tocar toda a noite. Por isso, achámos que era boa opção ele ir experimentar ter aulas para ver se gostava assim tanto daquilo. Gostou.  As aulas ficaram melhor opção do que lhe comprar uma bateria. Pelo preço, …

Querer impotente

Esta noite sonhei que te tinha perdido. Anos sem sonhar e agora isto: todas as noites, sonhos; algumas noites, mais do que um sonho. Esta noite, sonhei que me tinhas desaparecido. Sonhos com os medos impressos. Porquê? Estarei numa fase particularmente medrosa? Ou será da "meia-idade"? Desapareceste, mas reapareceste numa varanda do topo de um prédio no Parque das Nações. O teu pai e eu dissemos-te "não saias daí, vamos aí ter!". Não fomos. Perdemo-nos por becos, escadas e varandas e tu à espera. Como a tua espera me doeu! Queria chegar-te e não conseguia. Só encontrávamos gente de ar suspeito e nem um sinal de ti. Saber-te sozinho, sem nós, deixou-me louca, queria voltar ao ponto de partida em que te vi na varanda do topo do prédio. Mas o caminho era tão longo, era tudo tão distante. E se caísses? E se alguém te levasse? E se te fizessem mal? E nós sem conseguirmos chegar-te... Acordei para apagar os pensamentos. A sensação de impotência chegava próxima da de qua…

Da importunação

Em Agosto esta lei foi aprovada:
"Artigo 170.º Importunação sexual Quem importunar outra pessoa, praticando perante ela actos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal."
A comunicação social descobriu em Dezembro e lançou o burburinho, dizendo que a lei que criminaliza o piropo foi aprovada. 
"Piropo - palavra ou frase lisonjeira que se dirige a uma pessoa revelando que se acha essa pessoa fisicamente atraente; galanteio."
"Galanteio - acto ou efeito de galantear; acto de dirigir elogios a alguém; dito lisonjeador, com o objectivo de agradar ou seduzir; amabilidade; conversa amorosa; namoro."
Houve grandes discussões nas redes sociais à volta desta questão: gente a defender a lei; gente a exprimir o descontentamento por se dedicarem a aprovar le…

Plàf!

Sentei-me ao lado J. no sofá da Bertrand. Ele estava a ler mais um livro do Asterix (já leu vários em livrarias, o que nos sai bem mais baratinho), olhei para a página onde ele estava e digo-lhe na brincadeira: - Plaf? - leio - Que partido será esse o "Plaf"? - Portugal Ligeiramente à Frente. - responde-me ele prontamente.

Os filhos dos terroristas

O J. pegou nos carrinhos e pôs-se a brincar no sofá. - Vou brincar aos atentados! - disse. O pai olhou para ele e perguntou: - Achas que isso é brincadeira que se tenha? - Claro, os filhos dos terroristas também têm direito a brincar, ou não?