Avançar para o conteúdo principal

Tugalândia

Era uma vez um país distante situado num cantinho remoto da Europa. Tão distante que a maior parte dos americanos e uma grande parte dos europeus pensava que fazia parte da Espanholândia. Ao contrário do que estes povos pensavam, este país tinha um nome: Tugalândia. 
Neste país pequenino e rodeado por mar por todos os lados menos por um, viviam os Tugas, um povo pequenino de mentalidade, mas grande de aspirações.
Os Tugas estavam divididos em dois grandes grupos: o dos Espertalhex e o dos Otariadex. Mas havia ainda um minúsculo grupo de seu nome Interessadex.
Os Interessadex não tinham grande expressão, como grupo pequenino que eram, ninguém os ouvia. Podiam falar, falar e falar, que o que diziam só era ouvido pelos restantes membros do mesmo grupo. Os Espertalhex diziam que eles só tinham ideias utópicas, que viviam num mundo à parte e que não se conseguiam conectar com a realidade, etc., etc... Os Otariadex viviam fascinados com os Espertalhex e acreditavam em tudo os que estes lhes diziam. Não formulavam opiniões sem que os Espertalhex o permitissem, por isso nem reparavam que para além deles e dos Espertalhex, havia mais um grupinho que habitava aquele país.
Aos grandes grupos vigentes da Tugalândia separavam-nos a matreirice e o poder de oratória. Os Tugas Otariadex não eram matreiros, apenas tentavam ser para imitarem os Espertalhex e o seu poder de oratória era praticamente nulo.
Já os Espertalhex sabiam falar e falavam bem alto. E do alto. Quanto à matreirice, qualquer membro deste grupo, faria corar de vergonha as raposas das histórias infantis. 
Uma das técnicas mais apreciadas deles para aliciar os Otariadex era com doces. Sim, doces! Os Espertalhex sabiam que os Otariadex eram muito gulosos, por isso cada um deles tinha uma arca cheia de doces à porta de casa, que iam enchendo, enchendo, enchendo, até a arca jorrar doces à sua volta.  
Quando os Otariadex por ali passavam, atarefados para apanharem o autocarro que os levaria ao trabalho mal pago que os Espertalhex lhes tinham posto à disposição, olhavam os doces com desejo fervoroso. Alguns chegavam mesmo a salivar de um prazer imaginário, tal cão de Pavlov que ainda não provou o doce mas já sonhou com ele. Os Tugas Espertalhex, tal Pavlovs dos doces, iam experimentando uma campainha, que soavam em forma de palavras por eles proferidas, a cada Tuga Otariadex que passava à sua porta.

Os dias foram passando e os Tugas Otariadex salivando. 
Até que um dia, começaram a achar que os Espertalhex nunca mais se decidiam a dar-lhes um doce. Começaram a ficar aborrecidos e a rosnar um bocadinho enquanto salivavam, mas baixinho para que não os ouvissem muito bem.
Os Tugas Espertalhex, que de parvos não tinham nada, toparam aqueles rosnos e para que os Otariadex não os chateassem muito e não os impedissem de amealhar mais doces, resolveram, ao som campainha, dar um doce a cada Tuga Otariadex. 
Mal ouviram a campainha, os Tugas Otariadex logo se juntaram à porta das casas dos Espertalhex. Vinham de todos os lados. Eram autocarros, comboios, carros, e até mesmo bicicletas, cheios de Otariadex. Saltavam dos transportes e atropelavam-se para ver quem chegava primeiro. 
Neste grupo de Tugas havia sempre um ou outro que tinha veia Espertalhex e que, ora sacava de um embrulhinho a imitar os doces para aliciar os restantes e direccioná-los numa outra qualquer direcção que não a dos doces verdadeiros, ora sacava de uma faca de cozinha e desatava a esfaquear os gulosos adversários. 
Esta guerra entre Otariadex durou mais do que uma semana e foram morrendo alguns até que o primeiro pudesse sequer cheirar os doces.
Os Espetalhex, que faziam corar as raposas das histórias infantis em matreirice, apreciavam deliciados lá do alto das suas janelas, a bulha dos outros Tugas. E só quando o número de Otariadex ficou bem mais reduzido, é que lançaram o primeiro doce. 
Naquele momento, em que o doce voou até pousar na mão de um qualquer Otariadex em compulsão salivar, só se viam Tugas a amarfanharem-se. Era uma visão tenebrosa, mas os Espertalhex rejubilavam. 
Mal os Tugas sobreviventes puderam finalmente provar os doces, sossegaram, mas sossegaram tanto, que quem estivesse de fora juraria tinham morrido.

Na verdade, os Otariadex morreram mesmo, mas apesar de estarem mortos, ainda continuam a ter a ilusão de que estão vivos.

Mensagens populares deste blogue

Por entre livros e árvores

Estou sentada no sofá do supermercado junto aos livros.

Incrivelmente este supermercado tem um sofá para quem vê livros. Confesso que sou uma parasita das livrarias, daquelas que lêem muitos pedaços de literatura e raramente compram alguma coisa. Namoro livros durante meses, às vezes anos e só os compro quando já se criou uma certa intimidade entre mim e eles, ou entre mim e os seus autores.
Também compro por impulso, mas é mais raro agora que tenho menos dinheiro para consumismos.

Hoje, levo comigo para o sofá o Lobo Antunes e o Rodrigo Guedes de Carvalho. Vou lendo pedaços de um e de outro. Salto capítulos, reviro os livros e escolho páginas aleatórias na tentativa de entrar nas histórias e nas palavras. Mergulho em parágrafos que me marcam, afundo-me em frases que me fazem eco. Volto à superfície.

Por momentos, desvio o olhar dos livros para perceber o que se passa à minha volta. Entram e saem pessoas do supermercado. Há um homem que passa de guarda-chuva em punho como se fosse uma…

Marcadores: Capítulo 4

Levantou a cabeça. Olhou-me como se fosse pela primeira vez. Senti os olhos a percorrerem-me o rosto. Contornou-me os olhos, a boca, o nariz e parou o olhar para além de mim. É estranha a sensação de nos desenharem com os olhos, vermos-nos estampados na mente dos outros, recortados, colados e redesenhados. Deixamos de ser nós para passarmos a ser uma ideia de nós. Ana desenhou-me, mas abandonou a obra a meio para se colocar a uma distância de segurança. Foi para além de mim e por lá ficou.  - Desculpe tê-lo incomodado. Não devia ter vindo contagiá-lo com a minha tristeza. Estava aqui sossegado a beber a sua cerveja, melhor do que uísque, e vim trazer-lhe tristezas. A minha vida não tem estado fácil… Desculpe-me. É melhor ir-me embora. - Não, deixe-se estar. Estou a gostar de estar consigo. Além disso, não está em condições de ir sozinha para casa. Pelo menos, por agora. – disse-lhe, enquanto observava os dedos que tentavam desfolhar o marcador em forma de flor mais ou menos a meio do li…

Marcadores: Capítulo 1

Sentei-me na mesma mesa do canto. Pedi uma cerveja, acendi um cigarro e fiquei a olhar o mar. A esplanada estava quase vazia. Às três da tarde é normal não haver muita gente por aqui. Está muito calor. É a hora de que mais gosto, porque o vazio do espaço e a paisagem cheia ajudam-me a rascunhar palavras no meu caderninho. Escrevo frases soltas, sem grande nexo, que depois uso nos meus livros. O mar, lá em baixo, no fim da falésia a bater nas rochas e a brisa ligeira, cá em cima, a refrescar-me a mente, libertam as palavras que tenho presas em mim. Preciso de as soltar para voltar ao ténue equilíbrio que me mantém vivo. Trouxeram-me amendoins salgados. Sabem que são os meus aperitivos preferidos para acompanhar a cerveja. Bebo-a com mais gosto e com mais sede. Bebo golos pequenos, o gás faz-me arrotar se a tentar beber de um trago. Por isso, depenico a cerveja, e os amendoins, da mesma forma que sempre depeniquei a vida. Ela surgiu no cimo das escadas que nos leva até à esplanada. Sent…

Marcadores: Capítulo 3

O sol baixou para mais perto da linha do horizonte, ficando a um palmo do mar. Tinha-se passado tempo que não senti. Chet Baker tocava, agora, trompete só para nós. “I talk to the trees” pairava pela esplanada em busca do melhor lugar para se aninhar. Aninhou-se ali, entre mim e aquela mulher-menina. Não havia mais ninguém na esplanada, o casal da única mesa ocupada além das nossas tinha desaparecido, por isso o empregado aumentou o som. Faziam-no sempre que não havia gente que se pudesse queixar do barulho. Nunca me queixei. Antes pelo contrário, era essa a razão que me levava a percorrer quilómetros até ali: o jazz, por vezes alto, quanto mais alto melhor, e o sol a pôr-se no horizonte, quanto mais baixo melhor. - É a primeira vez que aqui venho – interrompeu-me, Ana, os pensamentos como se os lesse e precisasse de lhes responder – Costuma cá vir? - Sempre. Quase todos os dias no verão. - Porque não gosta de Direito? – saltava de tema em tema como se todos estivessem interligados. - Não…