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Extremamente Rasca

Hora de almoço. Desço a rua em direcção ao Centro Comercial onde geralmente almoço. Passo pelos sem-abrigo já meus conhecidos. Já não são três, são cinco ou seis. Estão reunidos em volta dos pertences que lhes sobram. Talvez tomem conta deles para que não desapareçam como tudo o resto que já lhes desapareceu...

Chego ao Centro Comercial e dirijo-me a uma qualquer cadeia de fast-food. Há imensa gente. Vejo-me rodeada de estrangeiros. Pedem comida em línguas diferentes. Uns tentam falar português. O empregado não percebe o que dizem, mas finge que entende qualquer coisa. Repetem, agora em inglês. O empregado articula um inglês macarrónico na resposta. Finalmente, acertam no menu. Pedem comida que poderiam comer em qualquer canto do mundo. Desta vez, vêm comê-la a Portugal. Usam notas altas para pagar. Vão, satisfeitos de tabuleiro na mão, procurar um lugar onde saborear a comida internacionalmente rasca. Vão contentes e não seguros, tal Leonor vai à fonte descalça. Não sabem, mas os seus pés também vão nus. Vão nus até às almas. Mas vão contentes...

Sou atendida e procuro o meu canto para repastar um lixo idêntico ao dos estrangeiros. Também eu descalça, mas segura. Segura de que preferiria estar no lugar deles, de alma nua, a comer comida internacionalmente rasca noutro qualquer país do mundo. 
Encontro-o a custo e sento-me para almoçar sem especial prazer. Observo a azáfama da multidão numa constante troca de cadeiras. 
Pouso os olhos na senhora que procura restos de comida nos tabuleiros abandonados. Já a conheço, como aos sem-abrigo. Encontra um copo meio-cheio. Leva-o consigo e continua à caça de algo que lhe encha o estômago.
Enquanto como, sou abordada por uma outra senhora com um carrinho de bebé, que me pede dinheiro. Respondo-lhe que não tenho e continuo a comer o meu lixo refinado. Sigo-a com o olhar. Pede dinheiro a mais gente que a despreza. Tal como eu. Tal como eu...

Acabo a refeição e sigo para fora daquele antro de incoerências.
Deixei o tabuleiro na mesa para a senhora dos restos. Que bondade, nacionalmente rasca, possuo!

Pelo caminho, quase sou abalroada por centenas de jovens que carregam mochilas, tendas, lancheiras, chapéus com nomes de bebidas, peles morenas e olhos ressacados. Trocaram, numa herdade do sudoeste alentejano, as centenas de euros que os pais lhes deram por alucinações, e ilusões, que lhes enchem as algibeiras. Vêm de rastos, mas seguros de que gastar os últimos trocos em comida internacionalmente rasca é fixe.

Finalmente, abandono o antro. 

Volto a cruzar-me com os sem-abrigo que já conheço. Conto-lhes os carrinhos de supermercado. Já são oito...
Continuo a caminhar. Vou de rastos, descalça, mas segura. 

Segura de que este é um mundo... 

...EXTREMAMENTE RASCA.

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