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Jéferson

Jéferson saiu do Brasil há dois anos. Mineiro de origem, boiadeiro de profissão, deixou o seu país, família e arte para procurar uma vida melhor além-mar.

Jéferson é pai de cinco filhos. O mais velho tem 20 anos e a mais nova fez, no mês passado, 6. Casado com Araci, morena bonita do seu coração, com quem dividia uma pequenina casa, de duas assoalhadas, na fazenda do seu antigo patrão, fazia das tripas coração para sustentar, e arrumar naquela casa, os 5 filhos.
Quatro dos filhos dormiam na sala. Dois na cama de ferro ferrugenta de corpo e meio e os outros dois no sofá. Daniela, a mais pequenina, partilhava a cama com os pais.

Araci trabalhava como criada na casa do patrão. Saía de casa antes do sol nascer e só voltava depois de ele se pôr. Tal como Jéferson. 

Depois de Araci tratar da arrumação do lar e dos filhos se deitarem, o casal juntava-se no alpendre de casa. Jéferson pegava no violão e tocava a banda sonora daquele amor, que tinha nascido com Araci a dançar  ao  som da música do seu, agora, marido.

Numa dessas noites de cumplicidade, Jéferson disse:
- Vou tê qui emigrá, Araci! Vou tê qui ir embora e trazê dinheiro p'rá esta casa! Tenho pensado muito nisso... Não temo manera de dá uma vida melhor p'rós nossos fihos, se eu continuá aqui. 
- Oucê qué ir embora? E deixá nós aqui, sem oucê?
- Não quero não, amô, má vou tê qui ir!

Jéferson escolheu Portugal como destino. Nos EUA já não recebiam brasileiros com tanta facilidade como antigamente, o ideal era a Europa, e na Europa, Portugal era o único país onde Jéferson iria entender a língua.

Deixou Araci e os 5 filhos para trás. Disse ao patrão que iria tentar melhorar de vida no estrangeiro, mas que voltaria 2 ou 3 anos depois e esperava que ele o recebesse de volta, nessa altura. 
O patrão assentiu. Gostava de Jéferson e conhecia-o desde pequenino. 
O pai dele trabalhou na fazenda até a morte lhe bater à porta. O filho substitui-o com toda a competência de filho de boiadeiro bravo.

Dia 25 de Setembro de 2010, chegou a Lisboa. Pensou que a capital seria o melhor sítio para se instalar, mas mal se apercebeu dos preços proibitivos das rendas de casa e dos quartos, mudou de ideias. Tentou nas redondezas e lá acabou por encontrar um quartinho para partilhar com mais três compatriotas.

Arranjou alguns trabalhos como servente nas obras, por períodos curtos. Dois, três meses e mandavam-no embora. Até que conseguiu um por seis meses, numa churrasqueira que vendia frangos assados exclusivamente para fora. 

Hoje, Jéferson ainda lá trabalha, dez horas por dia para receber 500€. 
Recepciona os frangos crus de manhã, caixas e caixas de frangos crus, e assa-os até à noitinha, caixas e caixas de frangos, agora, assados. 

Já quase não sente o calor das brasas que o desfaz em suor, já quase não ouve o patrão que lhe grita e o insulta, cada vez que ele não personaliza o que lhe vai em mente, já não toca a banda sonora do seu amor no violão, que tem encostado à cabeceira da cama, pois as pontas dos dedos queimadas já não sentem as cordas. 

Daniela entrou para a escola este ano, Jéferson não assistiu à filha caçula se tornar numa menininha crescida. Edson, o filho mais velho, vai casar para o mês que vem, e Jéferson não vai estar lá para dar a sua bênção. Araci tem dois vestidos novos, que ele viu nas fotografias que ela lhe enviou, e Jéferson não vai poder vê-la dançar com eles. 
Todas as noites, antes de dormir, olha a fotografia e pensa "como Araci deve ficá linda dançando com aqueli vestido das frôrzinhas..."

Mas Jéferson ainda não perdeu a esperança de ver Araci dançar com aquele vestido. Juntamente com os 200€, dos 500 que ganha mensalmente, e que manda religiosamente para Araci, envia um cartão que diz:

EM BREVE, NHÁ MORENA, EM BREVE OUCÊ DANÇARÁ P'RÁ MIM E EU TOCAREI P'RÁ OUCÊ.

Em breve...

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