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A Adolescente Rebelde Que Ainda Há em Mim

Não sou de desrespeitar gratuitamente as pessoas. Considero-me uma pessoa educada o suficiente para não cair em parvoíces de ofender os outros por "dá cá aquela palha".
No entanto, em adolescente, era frequentemente alvo de piropos nojentos e ofensivos, especialmente vindos das bocas dos trabalhadores das obras. Talvez, por sempre ter sido alta, talvez por ser loira, talvez pelas duas razões ou talvez por nenhuma delas... 
Não sei, mas lá que gostavam de me chatear, gostavam!

Eu tinha a mania que era rebelde e, como eles me ofendiam, eu ofendia-os a eles (ou tentava). Respondia-lhes "vai p'ró caral...!", "Vou ali vomitar-te num instantinho, seu monte de mer...!" e coisas do género, cheias de palavrões...

Hoje, os homens das obras são, maioritariamente, ucranianos (muito mais educados do que os portugueses e fartos de ver gajas altas e loiras). 
Hoje, os homens das obras de antigamente estão vestidos de fato e gravata, à porta de um qualquer escritório; sentados num café, a ver um jogo de futebol e em amena cavaqueira "à macho"; dentro de um carro desportivo, cheio de luzinhas azuis ou noutro sítio qualquer do seu agrado, mas já não estão nas obras.
Hoje, eu sou mais velha e imponho mais respeito (digo eu!) ou então tenho menos atributos que lhes agradem (felizmente!).

Mas hoje, a adolescente rebelde adormecida que ainda há em mim, despertou. E quando eu estava dentro do carro, com uma bolacha na boca, a fazer manobras, um rapaz, que me fez lembrar os homens das obras de antigamente, olhou para mim insistentemente, com aquele olharzinho nojento que eu tão bem conheço, e saiu-me instantaneamente um "O que é que foi, ó palhaço?".

Confesso que já tinha saudades de despejar a minha fúria num cretino qualquer! 
Obrigada, soube-me tão bem, ó palhaço!

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