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Babadices de Pai

O pai do J. sofre do mesmo problema que eu: Baba-se a rodos!
Enquanto eu me babo das gracinhas da criança, o pai baba-se a ver o menino jogar basquetebol! 

No outro dia, quando vieram de um treino, o homem chegou-me a casa com baba até aos joelhos. O miúdo não é nenhuma estrela do NBA, nem sequer é um prodígio daqueles que nunca falham um cesto, mas deixa o pai num estado deplorável. Safa-se a jogar, mas nada do outro mundo, porém tem uma garra impressionante e invejável. Tivesse eu metade da garra que ele tem e já tinha subido o Evereste com uma perna às costas! Ele corre atrás da bola até às últimas consequências, nas lutas com os outros pela posse de bola, só lhe falta agarrá-la com os dentes, à mínima oportunidade de voar, lá está ele a bater asas, não desiste nem que o atirem ao chão, pode cair, rebolar, ou tropeçar, mas acaba sempre de mão estendida na direcção da bola. Chega a ser comovente!
Claro que o rapazinho tem uns dias melhores e outros piores, mas os melhores deixam o pai knock-out!

Nesses dias, quando chegam do treino, o pai aproveita o bocadinho em que o filho toma banho, para me vir contar como correu... E todo ele é orgulho... A boca traz um sorriso rasgado, os olhos seguram uma lagrimazita com grande dificuldade e a baba escorre-lhe em cascata (chego ao ponto de duvidar se não será melhor ir buscar um balde ou calçar as galochas)...

Ando a pensar seriamente em oferecer-lhe um babete no Natal... Que acham?

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Por entre livros e árvores

Estou sentada no sofá do supermercado junto aos livros.

Incrivelmente este supermercado tem um sofá para quem vê livros. Confesso que sou uma parasita das livrarias, daquelas que lêem muitos pedaços de literatura e raramente compram alguma coisa. Namoro livros durante meses, às vezes anos e só os compro quando já se criou uma certa intimidade entre mim e eles, ou entre mim e os seus autores.
Também compro por impulso, mas é mais raro agora que tenho menos dinheiro para consumismos.

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