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Mensagens

O bailado

Faltava cerca de meia hora para o sol se pôr sobre as águas do Atlântico.
Na esplanada da praia, conversavam, um em frente ao outro. Ela, de top branco semi-decotado e casaquinho leve e escuro aberto, a cair-lhe dos ombros, parecia não sentir o frio que o vento trazia. Ele, de camisa aos quadrados e barba da moda como a de quem não segue modas, mantinha os pés descalços, um na areia e outro sobre o banco corrido, enquanto enrolava cigarros e a ouvia.

No meio da conversa, ela deitava-lhe olhares profundos e deleitados ao mesmo tempo que afastava o cabelo para trás dos ombros ou passava a mão pelo pescoço nu. O nervosismo que tentava segurar entre o esforço por dar uso às mãos, ao olhar, ou às palavras, era visível da mesa em que eu me sentara.  Os copos à sua frente já se encontravam vazios há algum tempo. Não havia a possibilidade de bebericarem de vez em quando. Talvez até já se tivessem esquecido desse pormenor que os poderia ajudar a filtrar a tensão do momento e torná-la menos inc…
Mensagens recentes

Bichinhos-de-conta e joaninhas

Passo por aí e arrepio-me.  O matagal, onde outrora foi o teu jardim cheio de rosas e laranjas e limões, e o anúncio da Remax a dizer que te vendem a casa...
Volto aos dias em que andava por aí a enrolar bichinhos-de-conta. Perseguia-os com os dedos até que se enrolassem e ficava à espera que se voltassem a desenrolar para lhes poder tocar de novo. Às vezes, pegava em vários ao mesmo tempo e escondia-os na palma da mão. Largava-os no chão e observava como reagiam todos juntos. Tentava adivinhar-lhes o lugar da cabeça. Passava horas entretida com os bichinhos e a viajar dentro de mim. 
Depois partia para as formigas ou para as joaninhas... E tu dizias-me: "Joaninha voa voa que o teu pai foi a Lisboa". E a minha cabeça voava para Lisboa à procura do meu pai que sabia noutro lado. Imaginava-o em Lisboa só para te fazer a vontade. 
Tentava pegar nas joaninhas e fazê-las abrir as asas para que voassem a caminho da tua Lisboa. Ou para outro lado qualquer. Achava-as feias de asas a…

Quando tens um filho mais ecológico do que tu...

- J., leva o lixo para baixo quando saíres, se fazes favor! - Ok!
Vais à porta para colocares mais um saco de lixo pronto para seguir caminho e vês que o teu filho levou o saco do plástico e um garrafão de água, deixando o outro garrafão no mesmo sítio. Como ele ainda está à espera do elevador, dizes-lhe: - Leva também este garrafão! Não custa nada! - Não, esse é reutilizável!  - Hã? Para quê? - Para encher com a água do banho quando estou à espera que ela aqueça... Depois podes utilizá-la para fazer a comida.

Burquíni

Não sendo eu muçulmana ou coisa que me valha, às vezes gosto de estar vestida na praia.

Gosto de lá estar como se estivesse numa esplanada, a ler um livro e a cheirar a brisa do mar. Só que, em vez de estar sentada à mesa e ter de consumir alguma coisa para poder ficar ali, estou na toalha, vestida como se estivesse na rua, com roupa da cabeça aos pés. Pronto, aos pés não, porque se há coisa que me agrada é andar descalça.

Num destes fins-de-semana estive no Algarve e foi assim que fui à praia. Até porque não levei biquíni e, como não sou escrava do bronze nem da exibição física nem tomo muitos banhos de mar, estive como me apeteceu no momento e naquele momento apeteceu-me ficar vestida.

Sei que isto pode ter várias causas para além de simplesmente me apetecer... Talvez uma delas seja eu ser uma loira de 1,80 m num país de homens morenos e baixinhos e ter sofrido - cedo demais e por largos anos - olhares e outras formas de expressão que denotavam um assédio constante e hoje prefira …

Adolescência

O meu filho tem treze anos. É um companheirolas. Sempre foi connosco para todo o lado, desde concertos a bares, restaurantes de comidas estranhas a exposições, museus, ou aonde quer que fôssemos.

Ontem, eu e ele fomos a um concerto de uma banda que toca música da minha geração e anterior, dos anos 70, 80, 90. O meu filho gostou imenso, conhecia praticamente todas as músicas que reconhecia aos primeiros acordes. Cantou e dançou um pouco e curtiu bastante o som.
No final da noite, depois de termos passado por um bar e de termos dividido uma Seven Up, quando voltámos para casa, pergunta-me: - A adolescência é termos mais vontade de sairmos com os nossos amigos do que com os pais? - Sim, é também um pouco isso - respondo-lhe. - Ok, mãe, sou oficialmente um adolescente!

Corcundas

Ter dúvidas é quase considerado pecado. "Ah, eu nunca me engano e raramente tenho dúvidas", já dizia o nosso "exímio" ex-PR quando ainda era PM.  Portugal está cheio de gente sobrecarregada de certezas. Têm tantas que as vemos curvadas pelo peso da convicção. Se por algum estranho acaso não estão plenamente convictas, inventam rapidamente uma qualquer certeza para ganharem credibilidade.
Estamos a criar um país de corcundas que se vergam à ilusão de parecerem fidedignos. Preferem acreditar em mentiras do que dar tempo ao processo de descoberta. A hesitação é o mal de que morrem de medo de vir a padecer.

E, no entanto, carecem do poder da interrogação. E, no entanto, padecem da ausência de clarividência.