sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Pedaços de Amor Que Se Exilam

Tenho a sensação que há pessoas que pensam que este blogue é um bocado cutxi-cutxi, que só fala das coisas boas na relação pais / filho, que fantasia um pouco quanto às qualidades da cria deste ninho.
Na verdade, pode haver momentos em que o amor que sinto pela dita cria se sobrepõe a uma análise objectiva dos factos, me tolda a visão da realidade ou me adoça a linguagem. Não obstante, tento relatar as cenas desta vida doméstica o mais clara e concisamente possível. Não só para ser transparente convosco, como também para respeitar uma honestidade comigo própria que tento preservar. No entanto, não me posso esquivar à tentação de preferir registar os momentos bons para a posteridade em desprimor dos maus que atiro para um canto do meu ficheiro interior de memórias na esperança que sejam esquecidos.

Para contrariar esta tendência em embelezar o blogue com os bons momentos passados neste ninho, hoje, venho relatar-vos um acontecimento que me acertou como se de uma facada se tratasse.

A necessidade de comprovar que o meu filho efectivasse a compra de uma senha para o almoço na escola foi o motivo que desencadeou a percepção de dilaceração deste coração de mãe.
Disse ao J. que, para ficar descansada que ele tinha almoço, já que não nos comunicamos por telemóvel, acompanhá-lo-ia à escola e compraria a senha com ele. Numa revolta descabida, a cria exalou jactos de pré-adolescência que vieram alojar-se directamente no meio deste peito. Intercalando lágrimas e despeito, reivindicou o direito de comprar a senha sozinha, porque os colegas a iriam gozar por ir com a mãe à escola e não poder mostrar como era grande e adulta e autónoma dos pais.
Ainda incrédula e a sentir abrir-se-me um buraco no meio do peito, digo-lhe que não admito tamanha falta de respeito quando o vejo expressar vergonha em ser visto na minha companhia. Responde-me que também já fui assim. Riposto-lhe que já fui adolescente sim, mas que não foi por isso que fui parva e que se eu respeito a sua necessidade de se mostrar grande e autónomo também exijo que me respeite enquanto sua mãe e que se os colegas o gozarem, são eles que são parvos e que ele tem a obrigação de negar compactuar com tamanha parvoíce. 
De coração ainda a sangrar e com as palavras a saírem-me tal golfadas ensanguentadas, acrescento que ele devia ter orgulho em ser acompanhado pela mãe, porque era sinal que a tinha, que há muitos miúdos que não têm essa sorte e que ele podia ser um deles se eu me tivesse ido quando a doença o houvera programado.
Desfeita, retiro-me para lhe preparar a lancheira e acalmar esta língua ofendida que se move sozinha ao som da dor que insiste em triturar-me por dentro.

Já mais calmos, voltamos a juntar-nos para o pequeno-almoço. Um "peço desculpa" rompe o silêncio e recolhe todos os pedaços que teimavam em fugir-me do centro, juntando-os de novo tal bolhas de mercúrio à procura umas das outras.
Contudo, fica a percepção que o amor não é inquebrável, apesar da capacidade exclusiva de se reconstruir e fazer pleno de novo.

8 comentários:

  1. Os meus ainda não estão nessa idade, mas palpita-me que terei muitos momentos assim. Que haja sempre um "peço desculpa" como epílogo de todos eles ;)

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    1. Que sorte eles ainda não estarem nesta fase, Piskito. Mas lá chegarão!
      O que vale é que esta fase também tem coisas muito boas.
      Bjs

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  2. Espero que não leves a mal, mas percebo muito bem o que o teu filho sentiu. Calculo que daqui a uns anos perceba ainda melhor o que tu sentiste :)

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    1. Eu também percebo, mas não aceito, não posso aceitar.
      Ele ainda só tem dez anos, mas pensa que já tem doze.
      Tem que ir com calma!
      Bjs

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  3. Ora vamos lá Sophie... Duas ou três coisas.
    1º uma beijoca e um pouquinho de "bettadine " (?) para essa ferida sangrada e cuja cicatriz vai abrir muitas mais vezes.
    Somos pedagogas e mães... e uma coisa não ajuda à outra. :)~
    Eles, querem ser autónomos e nós gostamos de nos "exibir" ao lado deles.
    Agora e sempre. Essas "subtilezas" vão chegar com o tempo...E , somos nós com os filhos , como com os homens/companheiros. Fazê-los sentir ter razão... e procurar as estratégias proverbiais, "todo o burro come palha, o que é preciso é saber-lha dar... ". Breve, vai chegar o tempo em que vai andar atrelado a si , como se seu namorado fosse, seu dono... É todo um vai vem permanente. Não se amofine...
    Beijnho grande e desabafe sempre.

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    1. Anamar, não sou professora. Na realidade, neste momento, não sou nada, porque estou desempregada. Ou melhor, sou desempregada. :)
      Eu não quero que ele ande atrelado a mim como eu não ando atrelada a ele, mas não admito que se envergonhe de andar comigo. É o mínimo de respeito que lhe posso exigir e exijo-o. ;)
      Bjs

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  4. Já passei por isso, mas penso que é importante que eles começem a fazer as coisas sozinhos, a assumir as suas pequenas responsabilidades, acho que só assim se vão preparando para enfrentar os problemas que vão surgindo sozinhos embora com o nosso apoio na retaguarda.
    Beijinhos

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    1. Rosinha,
      Também acho que devem fazer as coisas sozinhos, mas o meu filho tem dez anos e com dez anos já tem várias responsabilidade que assume muito bem e de que me orgulho.
      Este não foi um caso de mãe coruja, eu não quis super-protegê-lo, mas certificar-me que ele conseguia comprar a senha e que não ficaria sem almoço.
      O que me entristeceu foi a vergonha por ser visto acompanhado por mim.
      Bjs

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